Erich a publié une critique de Madame Bovary par Gustave Flaubert (Oxford World's Classics)
None
3 étoiles
A mulher segundo um homem, pois não passa do teste de Bechdel
O ritmo deste livro muda ao longo dele. E o ritmo parece muito associado ao humor da Emma. O livro não começa imediatamente com ela, mas vamos tomar a partir do casamento dela.
Primeiro temos um ritmo enfadonho como a personagem, a jovem burguesinha que simplesmente não sabe o que fazer e está completamente perdida na vida por estar desgostosa da sua situação atual. Ela me soa muito como um personagem chato masculino vestido aqui de mulher (uma pequena inversão de papel, para mostrar que mulheres também podem ser futeis e não só os homens da burguesia).
Depois vamos ao segundo tom, o tom das paixões. Aqui ela é, como persoangem, insuportável, mas o livro ganha um tom diferente. Parece que você ganha certo "respiro", e a narrativa ganha mais cores. De qualquer modo, intensifica a sensação que …
A mulher segundo um homem, pois não passa do teste de Bechdel
O ritmo deste livro muda ao longo dele. E o ritmo parece muito associado ao humor da Emma. O livro não começa imediatamente com ela, mas vamos tomar a partir do casamento dela.
Primeiro temos um ritmo enfadonho como a personagem, a jovem burguesinha que simplesmente não sabe o que fazer e está completamente perdida na vida por estar desgostosa da sua situação atual. Ela me soa muito como um personagem chato masculino vestido aqui de mulher (uma pequena inversão de papel, para mostrar que mulheres também podem ser futeis e não só os homens da burguesia).
Depois vamos ao segundo tom, o tom das paixões. Aqui ela é, como persoangem, insuportável, mas o livro ganha um tom diferente. Parece que você ganha certo "respiro", e a narrativa ganha mais cores. De qualquer modo, intensifica a sensação que eu tinha de que a personagem Emma é uma reedição de um personagem masculino. Do ponto de vista de mostrar que as mulheres tem tanta liberdade quanto os homens, legal. Mas, simultaneamente, detestável. Não só pela traição, mas pelo modo como o faz também. Ela é tão imprudente, trata tão mal o marido que só quer o bem dela (segundo o narrador), e faz gastos tão sem sentido para a realidade dela, fora as mentiras descaradas.
Por fim, vamos ao terceiro tom, o tom da desgraça. Aqui o livro pega um ritmo mais direto e fluido. Curiosamente ao fim do livro o livro se tornou mais fácil de ser lido. E isso talvez por ser mas objetivo no que está acontecendo, e vemos o caráter (ou melhor, a falta de) da Emma aflorar mais.
Bem, esse é um livro escrito por um homem sobre uma mulher. E ao mesmo tempo que sua personagem se faz um pouco mais livre, ele me parece colocar fatores suficientes na história para que você não goste da personagem. É muito fácil odiar a Emma. Seja por sua futilidade, seja por suas mentiras. Mas notemos o seguinte: na ânsia por dar liberdade a uma mulher, o autor nem trata a mulher como um indivíduo. Se invertessémos os papéis aqui veríamos um "clássico" baixo-burguês que traí a esposa de modo descarado, MAS que teria também alguma outra coisa na cabeça. Aqui a ÚNICA coisa na cabeça da Emma são os amores. O livro não passaria de verdade no teste de Bechdel, pois as interações entre as mulheres são basicamente sobre uma figura masculina.
Um outro romance que carrega algumas similaridades com este, mas que me soa MUITO mais bem escrito é Anna Karenina. Lá também temos essa dinâmica da liberdade da mulher, das relações burguesas, dos amores. Mas a personagem é muito mais real, com mais dimensões do que uma mera perdida de amores.
Comentando agora outras coisas
"Seu coração era como eles: ao atrito da riqueza havia-se colocado nele algo que não se apagaria." (pg56 na minha edição) No caso, a cobiça por entrar na alta burguesia. Ela é no máximo uma pequena burguesa (ou nem isso?) e quer os luxos de pertencer a outra classe. Esse desejo dela, essa cobiça, vai contaminar suas ações ao longo de toda a história.
"Desejava um filho [...] e essa ideia de ter por flho um macho era como a revanche em esperança por todas as suas impotências passadas. Um homem, ao menos, é livre; pode percorrer as paixões e os países, atravessar obstáculos, agarrar as felicidades mais distantes. Mas uma mulher é impedida continuamente" (pg85 na minha edição)
"Sabes o que seria preciso a tua mulher? retomou a mãe Bovary. Seriam ocupações forçadas, trabalhos manuais! Se fosse como tantas outras, constragida a ganhar seu pão, não teria esses vapores, que lhe vêm de um monte de iideiias que enfia na cabeça, e da desocupação em que vive" (pg 116 na minha edição). E esse é um ótimo diagnóstico, apenas com uma péssima indicação do que fazer logo depois.
"Essas cosas são invenções de Paris! [...] Não somos tão capazes assim, nós outros; não somos sábos, peraltas, corações bons; somos práticos, curadores e não imaginaríamos operar alguém que está às mil maravilhas! Endireitar os pés tortos! podem-se endireitar os pés tortos? é como se quisessem, por exemplo, tornar ereto um corcunda!" (pg 164 na minha edição) Adorei a bronca dada nesta cena, pois foi realmente absurdo a ideia de "vamos fazer uma operaçãozinha 'sem risco'". E vimos ali o caráter de boa gente do médico e de ambiciosos do farmacéutico e da esposa do médico.
"Emma reencontrava no adultério todas as banalidades do casamento" (pg 253 na minha edição) Essa, pelo menos, é uma constante interessante para ela. O que me dá um tom de que Flaubert queria usar esse livro tanto como uma denúncia de que as mulheres não tem liberdade quanto como um alerta de que (mesmo com essas liberdades) não existiria o amor romântico no nos livros de cavalaria.
